A partir de 2026, as organizações passam a ser fiscalizadas não só em relação à segurança física dos trabalhadores, elas também precisam responder pela saúde psíquica das pessoas. É isso o que traz de mais importante a atualização da NR-1.

Há quem torça o nariz para a novidade com o discurso de que essa será só mais uma espécie de “greenwashing” na versão saúde. Entendo perfeitamente o ponto e concordo que, sim, infelizmente é possível fazer uma adaptação protocolar. Por outro lado, me anima saber que há uma discussão no nível governamental para tratar um tema tão urgente.

Mark Scout, personagem principal da série Ruptura

É inegável que o mundo do trabalho vem se transformando nas últimas décadas. Aumento da precarização, diminuição de vínculos, avanço da tecnologia… esses e outros fenômenos contribuem para o crescimento da incerteza, da sobrecarga e, consequentemente, do adoecimento. Ao mesmo tempo, é importante resgatar que o trabalho exerce um papel central no bem-estar das pessoas.

Para o pesquisador Doutor Sérgio Roberto de Lucca, embora não exista consenso sobre a definição, “de uma maneira geral, os riscos psicossociais são apontados como fatores que podem contribuir ou mesmo desencadear estresse, adoecimento físico e mental nos trabalhadores.” Portanto, a atualização da norma traz, antes de mais nada, um avanço importante: a responsabilidade pelo adoecimento não é apenas individual. Nossa potência de vida é altamente influenciada pelo ambiente no qual estamos inseridos e cuidar dele é responsabilidade das organizações.

Ao longo dos últimos meses, temos conduzido projetos para apoiar empresas nesse processo de adequação, e esse caminho nos convidou a estudar o tema com mais profundidade. Desde cursos com os profissionais que escreveram a atualização da norma até a leitura de artigos para compreender como tratar os dados, passamos por muita pesquisa (e um bocado de prática!).

A partir de maio de 2026, as empresas passarão a ser fiscalizadas de acordo com a nova redação da norma. Até lá, o que o documento oficial sugere é que seja feita uma medição dos riscos psicossociais e um plano de ação a ser incorporado ao PGR da organização. Se você vai precisar tocar um projeto como esse nos próximos meses, reunimos abaixo alguns aprendizados importantes desse percurso até aqui.

NR-1: por onde começar

1) Escolha uma ferramenta validada cientificamente
Pode até ser que daqui a algum tempo tenhamos histórico suficiente para desenvolvermos um formulário próprio. Mas, por enquanto, se a ideia é fazer direito, vale ser conservador e usar uma metodologia já testada anteriormente (nós utilizamos o HSE).

2) A tradução importa
Aqui, cada palavra importa. Em cada projeto, fazemos os ajustes necessários de tradução e adaptação, de forma que o formulário dialogue com a cultura da empresa e não comprometa a confiabilidade dos dados que serão gerados.

3) Trate os dados de forma estatística
Uma vez definida a ferramenta, é importante seguir as recomendações do guia oficial e tratar os dados de acordo com as tabelas de comparação disponibilizada por eles. No caso do HSE, tabela 2 (para avaliar risco das dimensões), tabela 5 (para avaliar percentual de pessoas em risco) e tabela 7 (para avaliar perguntas que merecem atenção).

4) Dialogue com os dados da empresa
Quais dados a empresa já estão disponíveis? Absenteísmo, presenteísmo, os CIDs mais apresentados… E quais ações vêm sendo feitas que impactam diretamente a saúde mental dos trabalhadores?

5) Entenda as limitações
Qualquer pesquisa tem limitações. Neste caso, como estamos falando de uma prática nova, os limites ficam ainda mais evidentes. Mas feito é melhor que perfeito. Em cada projeto, olhamos para as limitações do cenário e apontamos isso no relatório para que, no futuro, possamos tentar mitigar essas questões.


Na Oceano, usamos pesquisa, comunicação e ações educativas para mapear e controlar os riscos psicossociais, com foco na melhoria das condições de trabalho e na saúde das pessoas. Se quiser dar estrutura, profundidade e continuidade no programa da sua empresa, nos escreva: contato@aoceano.org