A partir de 2026, as organizações passam a ser fiscalizadas não só em relação à segurança física dos trabalhadores, elas também precisam responder pela saúde psíquica das pessoas. É isso o que traz de mais importante a atualização da NR-1.
Há quem torça o nariz para a novidade com o discurso de que essa será só mais uma espécie de “greenwashing” na versão saúde. Entendo perfeitamente o ponto e concordo que, sim, infelizmente é possível fazer uma adaptação protocolar. Por outro lado, me anima saber que há uma discussão no nível governamental para tratar um tema tão urgente.

É inegável que o mundo do trabalho vem se transformando nas últimas décadas. Aumento da precarização, diminuição de vínculos, avanço da tecnologia… esses e outros fenômenos contribuem para o crescimento da incerteza, da sobrecarga e, consequentemente, do adoecimento. Ao mesmo tempo, é importante resgatar que o trabalho exerce um papel central no bem-estar das pessoas.
Para o pesquisador Doutor Sérgio Roberto de Lucca, embora não exista consenso sobre a definição, “de uma maneira geral, os riscos psicossociais são apontados como fatores que podem contribuir ou mesmo desencadear estresse, adoecimento físico e mental nos trabalhadores.” Portanto, a atualização da norma traz, antes de mais nada, um avanço importante: a responsabilidade pelo adoecimento não é apenas individual. Nossa potência de vida é altamente influenciada pelo ambiente no qual estamos inseridos e cuidar dele é responsabilidade das organizações.
Ao longo dos últimos meses, temos conduzido projetos para apoiar empresas nesse processo de adequação, e esse caminho nos convidou a estudar o tema com mais profundidade. Desde cursos com os profissionais que escreveram a atualização da norma até a leitura de artigos para compreender como tratar os dados, passamos por muita pesquisa (e um bocado de prática!).
A partir de maio de 2026, as empresas passarão a ser fiscalizadas de acordo com a nova redação da norma. Até lá, o que o documento oficial sugere é que seja feita uma medição dos riscos psicossociais e um plano de ação a ser incorporado ao PGR da organização. Se você vai precisar tocar um projeto como esse nos próximos meses, reunimos abaixo alguns aprendizados importantes desse percurso até aqui.
NR-1: por onde começar
1) Escolha uma ferramenta validada cientificamente
Pode até ser que daqui a algum tempo tenhamos histórico suficiente para desenvolvermos um formulário próprio. Mas, por enquanto, se a ideia é fazer direito, vale ser conservador e usar uma metodologia já testada anteriormente (nós utilizamos o HSE).
2) A tradução importa
Aqui, cada palavra importa. Em cada projeto, fazemos os ajustes necessários de tradução e adaptação, de forma que o formulário dialogue com a cultura da empresa e não comprometa a confiabilidade dos dados que serão gerados.
3) Trate os dados de forma estatística
Uma vez definida a ferramenta, é importante seguir as recomendações do guia oficial e tratar os dados de acordo com as tabelas de comparação disponibilizada por eles. No caso do HSE, tabela 2 (para avaliar risco das dimensões), tabela 5 (para avaliar percentual de pessoas em risco) e tabela 7 (para avaliar perguntas que merecem atenção).
4) Dialogue com os dados da empresa
Quais dados a empresa já estão disponíveis? Absenteísmo, presenteísmo, os CIDs mais apresentados… E quais ações vêm sendo feitas que impactam diretamente a saúde mental dos trabalhadores?
5) Entenda as limitações
Qualquer pesquisa tem limitações. Neste caso, como estamos falando de uma prática nova, os limites ficam ainda mais evidentes. Mas feito é melhor que perfeito. Em cada projeto, olhamos para as limitações do cenário e apontamos isso no relatório para que, no futuro, possamos tentar mitigar essas questões.
Na Oceano, usamos pesquisa, comunicação e ações educativas para mapear e controlar os riscos psicossociais, com foco na melhoria das condições de trabalho e na saúde das pessoas. Se quiser dar estrutura, profundidade e continuidade no programa da sua empresa, nos escreva: contato@aoceano.org
